Eu não era lá muito adepto do mundo
virtual e nunca havia pensado em ter um blog, mas aqui está.
Sou repórter e redator, trabalhei muito com cinema na imprensa,
moro em São Paulo e adoro essa cidade. A vida urbana me atrai
muito (sorte minha) e faço parte desse caos todo aqui, mas
até que sou bem tranqüilo (já fui menos). Acredito
que todo dia tem que ter pelo menos um momento, por menor que seja,
especial. Pra isso, é necessário saber enxergá-lo
no meio da correria de sempre.
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Estava eu tranquilamente indo trabalhar, caminhando pela Av. Brasil, quando em um cruzamento... pimba! Uma senhora aparentando seus setenta e poucos foi atropelada a uns quatro metros ao meu lado. Imediatamente, um casal que estava perto acudiu e, inteligentemente, o homem pediu para que a senhora não se mexesse. Eu já estava com o celular na mão chamando o resgate.
Nesses lapsos de tempo nos quais a gente só pensa depois (na hora o tempo voa e demora ao mesmo tempo...), o casal continuou seu caminho, o outro casal dono do carro que a atropelou posicionou o veículo para protegê-la do trânsito, chegaram duas viaturas da CET para ajudar. Até um médico e uma enfermeira de um laboratório próximo vieram ajudar, viram que ela estava bem e foram embora.
Dona Helena (o sobrenome eu não vou dizer, obviamente) até que se "comportou" bem como acidentada, mas estava começando a ficar um pouco incomodada com as pessoas ao redor, curiosas. Queria porque queria se levantar, alegando desconforto (quem gostar de ficar deitado em pleno asfalto, sob o sol e um monte de gente olhando, que atire a primeira pedra).
Não vi outra solução senão me abaixar e ficar com ela, sem tocá-la. Como ela estava de lado, começando a ficar um pouco agitada, me abaixei e quase deitei ao lado dela, para ela fazer contato visual. Tentava distraí-la, e ao mesmo tempo dizer que a ambilância já estava chegando.
Na verdade, eu pedia a Deus pra não dizer ou fazer nenhuma besteira, atitude péssima nessas horas estranhas...
Done Helena, bem vestida em sua roupa aparentemente de ginástica, disse que morava ali pertinho, nos Jardins. Também falou que trabalhou por 33 anos no Hospital Israelita Albert Einstein, "e agora sou eu que estou precisando de hospital, veja só", dizia sorridente (do jeito que podia sorrir...).
E aquela gente toda, na sua curiosidade, estava ali se perguntando (eu ouvi, cambada... rsrsrs) que maluquice era aquela de uma senhora atropelada deitada no chão e um cara ali quase deitado também... e a mulher rindo! Felizmente, fazendo ela rir, ela ia se esquecendo da idéia ruim de se mexer, na quel ela ainda falou umas cinco vezes (e eu insistindo para que não, sem fazer parecer insistência).
Quando a ambulância chegou, saí de perto, respondi a algumas perguntas do bombeiro e fiquei próximo.
Veio uma viatura da PM e o policial baixinho e de cabeça grande veio com "fica ali na calçada que dá pra 'apreciar' também". O bombeiro, que pelo jeito o conhecia, passou-lhe um sabão e explicou o que eu fazia ali. Naquela altura do campeonato, e o coitado do guarda achando que eu era um desses que alimentam a curiosidade mórbida em acidentes...
Bem, após o "momento Third Watch" do dia, a gente se acalma (só percebe depois o quanto ficou nervoso) e chega a umas conclusões...
1. Eu também estranharia ver alguém deitado no asfalto e rindo... Rsrsrs...
2. O casal que atropelou done Helena parou no ato para prestar socorro, não deixando o nervosismo e o sentimento de culpa (por mais que não fossem culpados... ela atravessou fora da faixa, verdade seja dita... mas gente de bem se sente culpada assim mesmo). Foram jóias.
3. Um gari local, que eu sempre achei meio esquisito, posicionou seu carrinho de lixo na pista para impedir o avanço de outros carros desavisados. Ponto pra ele e puxão de orelha pra mim.
4. Os bombeiros do resgate se mostraram meio despreparados... Mas foram assistidos pelo paramédico do SAMU, cuja ambulância chegou poucos minutos depois da primeira. despreparo, sim, embora atendessem com boa vontade... Mas isso é assunto pra outra hora.
5. Falando em despreparo... Cresci entre ótmos policiais pra saber diferenciá-lo dos outros, gente sem qualquer estrutura que se impressiona por estar usando um boné cinza e um 38 na cintura, achando ter uma razão que nunca teve. Psicologicamente, uns coitados. Felizmente, acompanhei bem de perto os tiras de verdade ao longo da vida, pra não ter uma idéia generalizada e burra da polícia.
6. O medo de eu falar besteira enquanto estava ali abaixado foi grande... Grande mesmo. Mas Papai do Céu tem uma mania bem interessante: Ele atende quando a gente pede orientação. Podem apostar nisso.
Bem... no fim das contas, a simpática senhora foi atendida, está tudo bem. Perdeu a ginástica de hoje mas estará novinha em folha após descansar este final de semana.
É... A vida urbana tem lá seus tropeços, claro que tem... Mas ainda assim, eu gosto demais da minha urbe.
Abração pra todo mundo e desculpas pra quem me cobrou sobre eu estar sumido daqui.
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Saboreado
por:
mc
às
11h01
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