Eu não era lá muito adepto do mundo
virtual e nunca havia pensado em ter um blog, mas aqui está.
Sou repórter e redator, trabalhei muito com cinema na imprensa,
moro em São Paulo e adoro essa cidade. A vida urbana me atrai
muito (sorte minha) e faço parte desse caos todo aqui, mas
até que sou bem tranqüilo (já fui menos). Acredito
que todo dia tem que ter pelo menos um momento, por menor que seja,
especial. Pra isso, é necessário saber enxergá-lo
no meio da correria de sempre.
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QUEM MORA SOZINHO TEM SEMPRE UM CANTINHO ESPECIAL PARA COLOCAR SUAS IDEIAS EM ORDEM, ALÉM DE CASA E DO TRABALHO – EM SÃO PAULO, UM DELES É O RAREBIT, MISTURA DE GALERIA DE ARTE, BISTRÔ E CAFÉ
Os urbanóides de vários cantos do mundo, principalmente os adeptos da arte de morar sozinho, já entenderam bem o significado do que é chamado de third place no dia-a-dia. O termo, diga-se de passagem, é bastante apropriado: é o seu terceiro lugar de permanência ou de convívio social, após sua casa e seu trabalho, nesta ordem.
Talvez nada se encaixe tanto da definição de third place quanto os cafés e bistrôs, tais como os conhecemos hoje, após as adaptações pedidas pela vida moderna. Por isso mesmo, alguns proprietários ousam e incrementam suas cafeterias, bistrôs e restaurantes, fazendo deles aquele cantinho em que você encontra os amigos depois de um dia árduo na labuta, senta em uma gostosa poltrona com o laptop para tentar dar uma adiantada na tese de mestrado ou doutorado, marca com aquela pessoa especial para conversarem melhor, vê contatos profissionais para uma reunião que pelo menos pareça mais informal - ou simplesmente esquece isso tudo e, confortavelmente, pura e simplesmente espairece.
Já sei... Lembrou-se do café Central Perk do seriado Friends não é?
Há aqueles espaços descaradamente comerciais mesmo – mas que nem por isso deixam de ser muito agradáveis – como a rede Starbucks, que deu um salto em seu crescimento após apostar na idéia de third place, ao invés de simplesmente um lugar para se comprar pó de café para levar para casa. Ao que parece, pelo menos até agora, a febre da sereia chegou ao Brasil para ficar. Nós, cidadãos paulistanos, compramos bem a idéia e já temos à nossa disposição mais de vinte lojas Starbucks pela metrópole afora. O próprio Howard Schultz, CEO da Starbucks, deve estar contente por ter cedido aos apelos da família Rodenbeck, proprietária da rede Outback no Brasil, para trazer o famoso café americano. Ele e nós, os que fomos conquistados pelo canto da sereia de duas caudas.
Mas espaços não tão comerciais assim, que apostam em uma proposta mais aconchegante, menos standard – vamos falar logo: com mais personalidade! – também exercem seu encanto entre os habitantes da urbe. E falando em personalidade, eu não posso deixar de citar um de meus cantinhos prediletos nesta enorme cidade que hoje é minha casa.
Mas isso tem uma historinha.
Eu, carioca de nascimento, já morei em cinco estados brasileiros. Há quase quinze anos, instalei-me em Sampa. E hoje tenho orgulho em dizer que meu coração é paulistano, assumidamente. E descobri que ele bate mais forte em um lugarzinho especial para o qual me mudei e do qual não sairei tão cedo: Pinheiros. Longas caminhadas pelo bairro e vizinhanças dele me mostraram inúmeros third places que fazem com que meu apê seja o meu quarto, e a região em volta dele seja o resto dessa casa em que vivo, chamada São Paulo. Sinto minha casa, mesmo fora dela. Para quem mora sozinho, isso cai como uma luva.
Num desses sábados frios, cinzentos e quase chuvosos que aprendi a amar, saí de casa com um objetivo fixo na mente: achar um café que fosse especial. Enquanto não acertasse, não voltaria. A caminhada era meio sem destino, errante, colina acima em direção à Avenida Paulista. Procurei entrar por ruas que eu não percorria normalmente, deixando as mais movimentadas de fora. Resolvi subir a rua Dr. Melo Alves, nos Jardins.
Lá embaixo, me vi em frente a algo que não é exatamente um café, mas um verdadeiro complexo gastronômico. Muito curioso e com muita vontade de conhecer o lugar, coloquei-o na lista de um outro sábado. Não era o que eu queria naquele dia. Mais acima, resisti à tentação de entrar na Oscar Freire, que tem seus espaços gostosos dos quais eu falarei com vocês, mas num outro dia... E foi justamente na quadra entre a Oscar e a alameda Lorena que me veio uma grata surpresa: um sobradinho bastante simpático em seus tijolos aparentes, toldo preto, mesinhas na calçada e clima acolhedor que chamava de longe.
Era o Rarebit, que para minha surpresa mostrava objetos de arte por todos os lados, além do cheirinho do espresso que me pegou ainda lá na calçada. Já entrei puxando conversa, no que fui correspondido prontamente pelo Carlos Uint, decorador veterano da Paulicéia, com trabalhos dentro e fora do Brasil. Qual não foi minha surpresa, conversando ainda, ao ser servido à mesa não por um garçom... Mas por um restaurador de móveis antigos e outras obras de arte, o Wilson! Hoje, Wilson é freelancer da casa, e aparece uma vez por semana para encarar o ateliê e a máquina de café.
Negócio de família
Esmiuçando melhor a história do lugar – coisa que eu gosto muito de descobrir – Carlos me mostrou que o espaço que é galeria de arte, bistrô, ateliê de restauração e loja de decoração (e café, para minha sorte!) é um negócio familiar, na boa acepção da palavra. É a própria família Uint que atende a quem chega, com seus aventais pretos de brim com o simpático logotipo do coelhinho estilizado, listrado. Em tempo: o nome do lugar vem de um famoso molho britânico de queijo, manteiga e condimentos (às vezes com cerveja), geralmente deitado sobre pão moído ou fatiado, o welsh rarebit, ou mesmo welsh rabbit. Daí o coelhinho do logo. Ah! Não! Não há coelho na receita...
Carlos conta: Mônica, filha de peixe, tem uma galeria de arte no local desde 1988. Com o tempo, ele e Wilma, sua esposa, resolveram se juntar à filha e montar o bistrô no andar de baixo, entre telas de vários estilos e simpáticas mesinhas com toalhas quadriculadas. O casal já está junto há mais de sessenta anos, entre namoro e casamento. Wilma, dessas mães carinhosas mas que falam tudo “na lata” doa a quem doer, fica escondidinha na simpaticíssima cozinha do sobrado. Ela teve uma babá portuguesa, a Celeste, que mais tarde também cuidou de Mônica e de sua irmã, Luciana. E a portuguesa, claro, era uma tremenda craque das panelas com seus doces portugueses, que Wilma aprendeu muito bem a fazer. Cocada com gemas... conseguem entender o aroma, a cor, a crocância do açúcar de grossa moagem e o sabor residual somente em três palavras? Cocada-com-gemas... Eu consigo. Comprovem... Ah, é feita no tacho de cobre, viu?
Mas não só de doces é feita a cozinha de Wilma, Carlos e Mônica. Já falei do café, obtido na máquina em cima do balcão feito de um antigo móvel de copa de madeira de lei. Pois bem: também há tortas doces e salgadas, vinhos de boa cepa, risotos, massas e um rosbife que “igual, só lá na Inglaterra”, como reza Carlos. Os nomes dos pratos, todos eles, remetem a artistas de todas as épocas e paragens.
Para o café da tarde, que tal uma fatia de bolo de fubá com erva doce? Bendita Celeste, que também aprendeu (e ensinou) a usar os ingredientes brazucas à mão...
No andar de cima, continua o (belíssimo) escritório da Mônica, com mesa de frente pra o jardim de inverno, e o show-room com mais telas, móveis antigos restaurados e até mesmo bijouterias das mais chiques, onde o gostoso sofá convida à reflexão e a acontecimentos inusitados – como o curso de cabala que eu peguei se querer acontecendo dia desses. Até o simpático banheiro merece uma olhadinha, com seu lavabo em madeira.
Sem dúvida, um de meus lugares mais queridos na minha capital. E pertinho de casa, em uma rua que também tem muitos outros atrativos!
Mas antes de fechar o Word: obviamente, os Uint são parte do meu tesouro paulistano. São uma de minhas famílias de Sampa. Amigos que sempre me deram muito carinho em horas boas ou difíceis. Não resisto a passar em frente ao sobradinho e a entrar para um café, um dedo de prosa e três abraços. Não estão no cardápio... Mas o carinho, o aconchego do lugar e o clima que fazem o dia valer a pena estão incluídos, pode crer. Tardes de sábado, ou do meio da semana, devem seu encanto à família Uint e a suas mesinhas de toalhas em xadrez, de onde eu sorvo meu bem tirado espresso e vejo o movimento da rua pelo grande pano de vidro frontal à guisa de vitrine.
Aliás, fazendo valer a regra do third place, com a qual comecei a matéria, adivinhe onde estou escrevendo este texto que é lido por você agora, vendo a tardinha cair lá fora?
Estão convidados!
Rarebit Galeria e Café – r. Dr. Melo Alves, 360, Jd. Paulista; tel. 11 3081-4350; http://www.rarebit.com.br/index.htm
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Saboreado
por:
mc
às
16h28
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]
envie
este sabor
Olhou para a poltrona do ônibus ao lado do corredor, lá pelo meio dele, um pouco chateado por não ter conseguido uma ao lado da janela. Pôs a mochila e a jaqueta jeans no bagageiro acima e sentou-se, com um pouco de má vontade. Gostava de ficar olhando a paisagem quando o sono desaparecia durante a viagem noturna, as cidades pequenas e grandes, os rios, a ponte Rio-Niterói (misteriosamente acordava, mal o ônibus entrava por sua cabeceira), as famílias nas salas de suas casas à luz azulada da TV, as pracinhas, igrejas, pastos, fazendas... Quando o sono vinha, apoiava o travesseiro ou mesmo a jaqueta dobrada no vidro, recostando-se de lado, cortinas fechadas. Não poderia fazê-lo desta vez...
Suspirou de leve, pois já sentia falta com antecedência da Baía de Guanabara em plena madrugada, já que alguém que sentasse ali fecharia as cortinas. Fez uma breve oração silenciosa por uma boa viagem, olhos fechados e cabeça baixa. Levantou-se, pegou um livro no bolso frontal da mochila e começou a ler, ajustando o encosto reclinável, o ônibus ainda parado na rodoviária do Tietê, todo aceso.
Absorto com a leitura, não se deu conta de alguém chegando e colocando a bagagem de mão no bagageiro.
- Com licença!
Olhou para cima e gostou do que viu: uma linda moça de seus vinte e poucos anos,
os cabelos cacheados e castanhos, quase ruivos, à altura dos ombros, um par de olhos verdes de rara beleza, grandes e brilhantes. Levantou-se e deixou a moça acomodar-se. Notou que ela olhava disfarçadamente o que ele lia, depois de ter olhado distraidamente pela janela, vendo o povo movimentar-se com malas e bolsas. Inclinou o livro para ela ver melhor, fazendo de conta que não percebia. O motorista cumprimentou os passageiros, como de costume, desejando uma ótima viagem e em poucos minutos estavam na Via Dutra.
Guarulhos já ficara para trás e ela olhava tudo com muito interesse pela janela, com aquele olhar (e que olhar!) curioso de marinheira de primeira viagem, pelo menos por aquela estrada.
- São José dos Campos.
Ela olhou surpresa para o rapaz ao seu lado, surpresa por ele saber da sua curiosidade e satisfazê-la. Riram e começaram a conversar amenidades. A moça nunca saíra de São Paulo, tudo era novo. Ele, já habituado, era seu guia pela Dutra afora. Entre um “ponto turístico” e outro, conheciam-se, descobrindo terem mais em comum do que imaginavam. Ele já se esquecera da chateação inicial por não conseguir a poltrona em que ela se sentava.
Na parada para o jantar em Queluz, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, a conversa ficou mais divertida, com ele fazendo gozações sobre o fato de ela comer tanto e continuar tendo um corpo tão bonito. O ônibus amarelo retomou a estrada, com os dois falando besteirinhas agradáveis, comendo os doces que ela havia comprado. Ainda com ele bancando o guia, falaram sobre filmes (paixão nada secreta dele), poesias e livros (paixão nada contida dela), teatro, gastronomia, esportes, lugares interessantes de Sampa, faculdade, trabalho, infância, brinquedos antigos, alegrias, tristezas, algumas confissões, Deus... Um pouco de tudo o que era realmente importante. Embora o papo estivesse formidável, a moça mostrava sinais de sono. O rapaz ofereceu a ela a jaqueta dobrada como travesseiro, que ela aceitou de bom grado, usando seu moletom como cobertor. Com as cortinas cerradas, ele admirou com a pouca luz o modo belo e tranqüilo de ela dormir. Parecia estar sorrindo. “Parece uma criança”, chegou a pensar ele, também adormecendo sem ver Volta Redonda surgir.
Ele acordou com uma luz que passou rápido. Ela olhando para fora, com as cortinas escancaradas. Pegou um pacote de drops e ofereceu, ela aceitando com um sorriso maroto.
- Me acordou de propósito com essa luz toda, né?
- Claro! Vi umas coisas interessantes e estava sem meu guia turístico!
Riram e só então ele reparou nos postes que passavam bem rápido, as luzes amarelas das lâmpadas de vapor de sódio: Avenida Brasil. Estava em sua terra natal.
- Caramba!
Olhar interrogativo dela:
- O que foi?
- Daqui a pouquinho você vai ver!
Novamente um olhar interrogativo dela, mais carregado de curiosidade que o anterior.
Ela encantou-se com o belo edifício do Instituto Oswaldo Cruz e suas cúpulas iluminadas. Algumas lojas e lugares da infância do rapaz ainda permaneciam e várias histórias eram tiradas do baú. Ela foi perdendo um pouco o preconceito pelo Rio, alimentado até então por pura falta de informação.
O veículo começou o leve aclive após o fim da avenida, e pedaços do porto começaram a aparecer diante deles. Ela, maravilhada ao perceber que entrava em plena Ponte Rio-Niterói, mais ainda por não estar somente apreciando uma bela paisagem e sim por estar ouvindo de seu acompanhante várias histórias de sua construção e outras informações. Ele contava de um jeito gostoso, atraente. Poucos não se espantariam com a extensão da velha ponte, uma das maiores obras arquitetônicas do país. A baía trazia mais surpresas na noite clara e muito bonita: a Ilha Fiscal e seu palácio, as luzes da pista do aeroporto Santos Dumont, que parecia flutuar sobre as águas, o Corcovado amarelado pela luz, o Pão de Açúcar, o relógio luminoso da Central do Brasil, os navios acesos de vários países, a base naval, uma ou outra plataforma petrolífera no estaleiro, um submarino atracado... A jovem estampava no rosto o contentamento.
Fechando a cortina após saírem de Niterói, conversavam baixinho, aprontando-se para dormirem mais um pouco, pelo menos até chegarem a Campos dos Goytacazes para o café da manhã. O sorriso dele, com o rosto muito próximo ao dela, era tão evidente que ela perguntou:
- Que foi?
- Não foi... ainda tá sendo!
Riram e ele explicou:
- Eu estava triste lá em São Paulo por não ter conseguido a janela, pois gosto demais de ver a Guanabara. Sempre que a poltrona está ocupada por outro, não dá pra abrir a cortina e fico na mão. Você não só não atrapalhou isso, como me acordou a tempo! O melhor de tudo...
- O que?
- Pude compartilhar contigo e... estou meio sem jeito de dizer...
- Fala!
- É que já vi essas coisas milhares de vezes... mas nunca achei tudo tão bonito quanto hoje...
Ficaram se olhando por um bom tempo, tranqüilos e satisfeitos. Ela gostava do modo como ele “sorria com os olhos”. Ele cortou o silêncio, brincando, driblando o pouco de timidez:
- Agora posso dizer pra todo mundo que dormimos juntos! Foi bom pra você?
Riram novamente, ela dando um tapinha de mentira no ombro dele, deixando a mão repousar onde bateu. Ele, sorrindo:
- É melhor dormirmos.
Cobriu-a com o moletom, olharam-se mais um pouco (os olhos castanhos dele podiam não ser tão bonitos quanto os verdes dela, mas o brilho não era menor) e ela adormeceu devagarinho. Parecia sorrir mais que antes. Ele agradeceu, orando em pensamento, por uma das melhores viagens de sua vida até então.
O melhor foi o que pensou, nos últimos segundos antes de cair no sono: aquela viagem, pelo que tudo indicava, não teria fim simplesmente com a chegada à rodoviária. Não terminaria tão cedo em suas vidas...
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Saboreado
por:
mc
às
22h47
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este sabor